bypassing espiritual nas emoções

Bypassing espiritual: porque a fé sozinha não chega

Quantas vezes usamos a procura por uma paz inabalável para ignorar as dores, contradições e emoções difíceis do dia a dia? Este fenómeno, também chamado de bypassing espiritual, transforma a espiritualidade numa armadura contra o desconforto, afastando-nos daquilo que mais procuramos: uma ligação genuína connosco próprios e com a vida.

Recentemente facilitei no retiro Dois, o retiro do estúdio onde dou as minhas sessões e que tem sido casa nos últimos quase 2 anos.

O tema do retiro focou-se na Dualidade e eu quis trazer luz sobre uma questão que vejo muitas vezes a ter lugar em ambientes ditos “espirituais” ou “conscientes”: uma utilização das práticas espirituais como modo de fuga à realidade e às emoções que estão presentes. Resolvi reunir aqui as minhas notas e partilhar o que partilhei com os participantes antes da sessão de Libertação Emocional.

O que é a dualidade?

Sabendo que existem várias perspetivas, trouxe a que me faz mais sentido: a noção de que a dualidade é a perceção de que existem opostos — quente/frio, luz/sombra, eu/outro, corpo/espírito. A partir de uma perspetiva espiritual, também podemos vê-la como a sensação de estar separado do todo e o impulso de nos voltarmos a ligar ao todo.

Se a experiência de estarmos separados do todo não existisse (a dualidade), não haveria necessidade de procura espiritual.

  • Algumas práticas espirituais, como a budista ou hindu, são entendidas como procurando a dissolução da dualidade: procuram a realização (ou a experiência vivida) de que: não somos separados do todo.
  • Outras, como o taoismo ou o tantra, procuram a vivência da experiência material na dualidade, sem dissolução de opostos, mas através de uma dança entre eles, em que um contém o outro.

Na minha perspetiva, ambas são verdade, mas conceber isso não é fácil. Implica que sejamos capazes de aceitar verdades aparentemente paradoxais. Mas antes de irmos aí gostava de trazer outro conceito para esta discussão. 

O que é a espiritualidade?

Um conceito que acredito que tenha definições tão diferentes quantas pessoas existem. Como não há uma definição fechada, trouxe a minha preferida do momento:

Espiritualidade é reconhecer e celebrar que estamos interconectados uns com os outros por uma inteligência superior a nós [ou inteligência natural] e que essa conexão a essa inteligência e uns aos outros é enraizada em compaixão, amor e mistério. Brené Brown

 

Lembrando que, para nos conectarmos uns aos outros, temos primeiro que tudo, de estar conectados a nós mesmos. E esse primeiro passo talvez seja o mais difícil.

Esta ligação interna é fundamental porque, quando usamos a espiritualidade apenas para procurar estados de harmonia sem ancoragem em quem somos e no que sentimos, arriscamo-nos a cair numa ilusão. É aqui que compreendemos o verdadeiro papel da fé em confronto com a realidade — algo ilustrado perfeitamente pelo Paradoxo de Stockdale.

James Stockdale, um almirante americano que foi prisioneiro na guerra do Vietname e durante 8 anos foi sujeito a torturas repetidas sem saber se iria sair de lá vivo, deu uma entrevista muitos anos depois que acabou por dar origem ao chamado Paradoxo de Stockdale.

O entrevistador perguntou-lhe quais eram as pessoas que mais facilmente sucumbiam e não aguentavam. Stockdale respondeu: Os Otimistas. Os que diziam “vamos sair no Natal” ou “vamos sair na Páscoa” morriam de desilusão. O coração partia-se de tanto esperar.

O que Stockdale nos ensina, e que é extremamente pertinente aqui, é que não podemos confundir a FÉ (ou espiritualidade) de que vais chegar ao fim – que nunca podes perder – com a disciplina de te confrontares com os factos brutais da tua realidade, seja ela qual for.

A fé não salva ninguém por si só

É aqui que sinto que muitas pessoas se perdem: na crença de que a simples fé as vai salvar, sem que tenham de olhar para a realidade da vida que as rodeia.

Em Portugal vivemos um fenómeno a que costumo chamar mentalidade euromilhões: a crença de que preciso de ganhar o Euromilhões para a vida mudar; ou o acreditar que, quando alguma coisa externa acontecer, tudo se vai resolver. E esperamos com uma “fé desenraizada” que, de alguma forma, sem agir, a vida vá encontrar o rumo que queremos.

Mas acreditar que tudo vai correr bem e agir de acordo não são coisas incompatíveis. É um paradoxo: duas verdades contraditórias mantidas ao mesmo tempo. Carl Jung explica que o “paradoxo” é uma das propriedades espirituais mais importantes. Apenas o paradoxo se aproxima de entender a grandeza da vida.

Dualidade e Espiritualidade na Prática

A experiência espiritual é indizível — é preciso viver. Carl Jung

 

Como vivemos a experiência da espiritualidade na prática, no dia a dia? Através da dualidade e dos paradoxos que a vida nos apresenta. Todos os dias, a Vida dá-nos a oportunidade de experienciar a dualidade que é ser um ser individual e, simultaneamente, ser parte do todo. Todos os contatos, todas as pessoas, todas as emoções.

O que sentimos no nosso corpo todos os dias ajuda-nos a experienciar o que é invisível e indizível. 

Nos últimos milénios, vários autores, filósofos, mestres e praticantes de várias medicinas dedicaram-se a ilustrar os vários sistemas que nos compõem e que a ciência não consegue ainda medir para nos ensinar sobre esse invisível, da forma mais aproximada possível, ajudando-nos a expandir. Um entendimento que, sem ser experienciado, de nada serve; mas que, ao ser vivido, nos permite abarcar a totalidade da experiência humana e espiritual.

Também nas emoções encontramos Dualidade 

No início do século XX, desenvolveram-se as 7 Leis Herméticas, atribuídas a Hermes Trismegisto. A 4ª lei, a Lei da Polaridade, diz que tudo é duplo, que os opostos são idênticos em natureza e diferem só em grau (quente e frio são o mesmo fenómeno: a temperatura), que os extremos se tocam e que toda a verdade é meia verdade. A isto junta uma componente prática, a “polarização”: podemos transmutar um estado mental noutro deslocando-nos ao longo da escala (por exemplo, do calor para o frio, da escuridão para a luz, do ódio para o amor).

Lei da Polaridade - bypassing espiritual

O inconsciente compensa o que o consciente exclui: a Enantiodromia

A enantiodromia, é um palavrão que vem do grego e que nos diz que, quando algo é levado ao extremo, transforma-se no seu oposto. 

Etimologia: Do grego enántios, «contrário»+drómos, «curso»+-ia

1.FILOSOFIA (Heraclito) unidade existente na própria oposição entre elementos contrários (amor/ódio; guerra/paz; etc.), decorrente do movimento universal dos elementos e do eterno retorno ao seu estado original, o que leva a que cada coisa, eventualmente, se transforme no seu oposto

2.PSICANÁLISE (Jung) princípio que afirma que o excesso ou abundância de qualquer força ou elemento provoca uma posição oposta inconsciente de igual intensidade

 

Carl Jung dizia que, ao reprimir e ignorares um lado de nós (viver de forma excessivamente controladora ou racional), o oposto reprimido acumula energia na sombra e, mais cedo ou mais tarde, irrompe com força, às vezes de forma disruptiva. 

Também nas emoções encontramos Polaridade 

Basta pensarmos naquelas pessoas que passam a vida toda a servir toda a gente, caladas e servis, até que a determinada altura passam para o outro extremo. As emoções têm um propósito. A Raiva é necessária para impôr limites.  A tristeza para que possamos fazer o luto ao que foi importante para nós. A alegria para nos informar sobre o que nos entusiasma. E por aí fora. A repressão de qualquer uma vai trazer desiquilíbrios.  

Podemos pensar na enantiodromia como um regulador da consciência (ou Psique). O inconsciente compensa o que a consciência exclui, empurrando o nosso sistema para o equilíbrio (a homeostase).

Num exemplo mais prático: a febre é o corpo a subir a temperatura de propósito porque o calor extra dificulta a vida ao vírus ou à bactéria e ativa o sistema imunitário.

  • A febre é o corpo físico a corrigir-se a si próprio — um desequilíbrio respondido com outro desequilíbrio temporário;
  • A enantiodromia é um desequilíbrio emocional respondido com outro desequilíbrio emocional temporário para trazer o corpo de volta ao equilíbrio. Se ao longo do tempo, situações ocorrem em que deveria sentir raiva mas não me permito, eventualmente essa emoção vai ser trazida à superfície em forma e desiquilíbrio para compensar;

Em ambos os casos, é importante que o sintoma seja interpretado como o resultado de algo mais abrangente. 

Acolher a Dualidade do que Somos e do que Sentimos

Quando não somos capazes de segurar a tensão entre opostos, o corpo e a psique vão fazê-lo por nós.

As emoções são pura e simplesmente um sistema regulador do nosso estado de tempo interno. Precisamos delas para processar a vida. Quando as empurramos para o inconsciente, elas encontram forma de sair dessa sombra das formas mais inesperadas. Quando lhes damos espaço e permitimos que nos atravessem, encontramos equilíbrio no caos que é a vida.

Abraçar a Totalidade do Ser

A verdadeira espiritualidade não se constrói na rejeição da sombra ou no refúgio num ideal de perfeição inalcançável. Ela vive na capacidade de habitar a tensão dos opostos: de acolher a luz sem temer a escuridão, e de manter a fé no caminho enquanto se encaram os factos brutais da realidade. Ao deixarmos de fugir do caos emocional e permitirmos que cada sentimento nos atravesse, transformamos a dualidade numa dança contínua de integração, presença e amor pleno pela nossa humanidade.



A Alegria é o Presente do Amor
A Tristeza é o Preço do Amor
A Raiva Protege o que Amamos


— Valarie Kaur

Recebe as cartas da Sofia

Recebe no teu e-mail reflexões reais, histórias e descobertas que podem mostrar-te o caminho de volta à tua essência e à nossa humanidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *