“Estou em Cabo Verde com uma grande vontade de te falar, mas não é para saber de ti, é para saber de mim.”
António Alçada Baptista – O Riso de Deus
É para saber de mim que te escrevo. Esta frase no livro do meu avô lembrou-me a razão pela qual gosto de escrever.
A maioria das vezes escrevo em papel. As minhas notas já têm uns anos e uma boa altura na minha secretária. Comecei a usar os cadernos como psicólogo em 2011 quando viajei sozinha pela primeira vez. Tinha 23 anos e estava a caminho de Moçambique numa viagem de 10 horas sozinha. Enfiei um caderno na mochila sem grande intenção e acabei por dar início à minha jornada de autoterapia.
Não são notas brilhantes nem sequer estão todas escritas de forma coerente. Na verdade, acho que muitas delas são vómitos emocionais a encontrarem expressão no papel.
Escrevo muito a duas vozes. No início uma das vozes vomitava e a outra era uma espécie de treinador super exigente que exigia de mim coisas que eu não era capaz de dar.
Nos últimos anos (talvez desde que abracei uma componente mais espiritual na minha vida), a segunda voz foi ficando mais neutra, com menos julgamento, e até amorosa). Acho que foi essa voz que se tornou terapeuta, ainda antes de eu fazer ideia de que era isso que ia fazer.
O Gregorio Duvivier (um génio da escrita da porta dos fundos) diz que a angústia é fala entupida. Eu escrevo para que as angústias não me fiquem entupidas. Percebi que o meu avô fazia o mesmo e acho que isso me fez sentir importante.
Escrevo maioritariamente para expressar e entender o que sinto. Escrevo-te para saber de mim, na esperança que isso te faça saber de ti também.
Vivo com uma vontade incontrolável de tirar o véu que tapa as emoções escondidas. As minhas. As tuas. Entro numa sala e sinto o que se passa de forma subtil. As falas entupidas, mas também as emoções que ocupam mais espaço do que o corpo de quem as veste, e não percebe porque se sente tão pesado. Hoje faço disso profissão, mas já vivi muito tempo a tentar tirar os véus da energia subtil que se sente em salas pesadas, como alguém tentaria tirar os lençóis empoeirados das mobílias de uma casa velha, sem autorização do dono. Levantado pó que ninguém quer respirar. |
Aprendi muito sobre as motivações inconscientes que dirigiam as minhas decisões a escrever sobre elas.
Aprendi muito mais a escrever (e a compreender) o impacto das decisões e das emoções dos outros em mim. Como eu me sinto depois das atitudes de alguém, diz muito mais sobre mim, do que sobre a atitude daquela pessoa. Se alguém me faz sentir pequeno porque não dá valor ao meu trabalho – isso diz muito mais sobre o quão pequena eu me sinto. Se alguém me faz sentir ignorado eu pergunto-me onde me estou a ignorar a mim mesma. Se alguém me faz sentir raiva eu pergunto-me onde estou a ignorar os meus limites. Trabalhando nisso, a capacidade desses gatilhos serem ativados em mim vai-se desvanecendo.
O véu que cobre as emoções é apenas invisível aos olhos. O ser humano tem, contudo, um lado subtil, uma antena energética, que vai além do pensamento, que capta os sinais do outro lado. O lado mais subtil do ser humano capta tudo e reage a partir deste sítio.
Ganhar consciência emocional é para mim um imperativo da vida em sociedade. Traz linguagem a uma língua que está sempre a ser comunicada, mas que poucos compreendem.
E é para isso que escrevo. Para trazer linguagem a esta língua invisível que não tem país nem cultura, mas que tem expressão em todos os seres humanos. A linguagem das emoções.
Com Amor,
Sofia


